Desenvolvo o conceito de Aparição compreendendo um conjunto de processos experimentais e imagéticos que desafiam perspectivas hegemônicas e reivindicam um campo estético-filosófico contracolonial. Atuando fundamentalmente como uma dinâmica de memória coletiva, a Aparição opera uma metodologia de insubordinação à ordem imposta. É o espaço onde a investigação em arte atua diretamente na reconstrução do simbólico, atualizando presenças e dando repertório a discursos historicamente violados.
O Corpo é, ele mesmo, uma palavra antiga, repetida: arquivo de reminiscências interditadas que, embora clandestinas, reaparecem inadvertidamente pelas frestas do tempo, para além do cognoscível, posto que recuperam argumentos que estão dissolvidos na paisagem e na vivência de uma memória coletiva que nos fundamenta.

O trabalho Teso, articulado no interior do coletivo T.E.S.O. (Territórios Emergentes de Significações Outras), é um experimento de interrupção: ao permitir que “outros bichos”, incategorizáveis, habitem a cena, ele se firma como um exercício permanente de reorganizar os limites do dizível.
Proponho, portanto, Aparição como uma tecnologia do signo — um contrafeitiço à praguejância sobre os corpos. A Aparição não representa; ela presenta uma força que insiste em permanecer. É o corpo que atravessa e desorganiza a ordem imposta, estabelecendo uma zona de acordo entre o que está e o que já se foi, tensionando hegemonias.

Performanace INcorporação, Rona Neves (2024). Muhcab, Rio de Janeiro
Seja pela via das “memórias subterrâneas” de Michael Pollak ou da política espiralar de Leda Maria Martins, o gesto performativo escava o tempo — une pontas de passado e presente, permitindo devolver ao mundo velhas coisas em novas formas.
Assim, a aparição aparece, dali e daqui, até adquirir corpo; até reaprender seu nome próprio.
A partir disto, existe, porque apareceu.
Leia o artigo completo em:

Políticas do feitiço: aparição como arquivo do sensível – Liège Santos
Políticas del hechizo: aparición como archivo de lo sensible
Revista Encanterias – Universidade Federal do Amapá




